Pesquisadoras discutem relações no mundo do trabalho na 22º edição da FISP

A socióloga Juliana Andrade Oliveira, a pesquisadora Maria Cristina Gonzaga e a jornalista Cristiane Oliveira Reimberg abordam temas sobre assédio moral, acidentes com animais peçonhentos e sofrimento e prazer no trabalho

Por ACS/ Débora Maria Santos em 24/10/2018

Em mais um ano, a Fundacentro esteve presente na 22ª edição da Feira Internacional de Segurança e Proteção (FISP). O segundo dia, 04 de outubro, contou com a participação da socióloga Juliana Andrade Oliveira, que abordou o tema “A prevenção da discriminação de gênero e do assédio sexual no trabalho”, da pesquisadora Maria Cristina Gonzaga, que discorreu sobre “Proteção dos trabalhadores durante o cultivo de abacaxi contra ataques de serpentes peçonhentas”, e da jornalista Cristiane Reimberg, que destacou sobre o “Sofrimento e prazer no trabalho”.

“O assédio moral e o assédio sexual no trabalho são fenômenos de violência a serem entendidos no contexto da organização do trabalho”, informa Juliana Andrade Oliveira, em sua palestra no estande da instituição.

A socióloga e tecnologista da Fundacentro de São Paulo salienta para a existência entre trabalho prescrito e o real. Nesses casos as dinâmicas durante a execução do trabalho podem ocorrer imprevistos e situações instáveis.

Juliana ressalta que os assédios ocorrem na organização do trabalho. “Os assédios se inspiram de como os trabalhadores podem ser discriminados socialmente”, informa. Completa que de forma negativa, o tratamento diferenciado pode ocorrer devido à escolha da religião, raça/cor, orientação sexual ou gênero/sexo.

Essas discriminações desencadeiam uma série de problemas de saúde os quais englobam, de acordo com a Organização Internacional do Trabalho (OIT), sintomas psicológicos e físicos.

Divisão de trabalho por sexo

“Para esta Feira ser realizada precisa de uma série de trabalhos, dividido entre todos que compõem a programaçao do evento. Alguns trabalhos são destinados às mulheres, geralmente os trabalhos de comando são para os homens”, explica a socióloga.

Em contrapartida, Juliana destaca que as mulheres trabalham mais que os homens nos afazeres domésticos, ou seja, se dedicam 18,1 horas/semana e os homens 10,5 horas/semana. “As mulheres se dedicam 73% a mais do que os homens, além disso, muitas interrompem a carreira para cuidar de alguém da família. Desde criança são treinadas para cuidar”, enaltece a tecnologista.

Informa ainda que a profissão de cuidadora cresce a cada dia. Porém, como essa atividade é bem remunerada acaba atraindo os homens. Por outro lado, as mulheres vêm ocupando cargos, até então, ocupados somente pelos homens. “As mulheres estão trabalhando em canteiros de obras, como estivadoras e na metalurgia”, ressalta.

De acordo com a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD), 39,1% são cargos de gerência ocupados pelas mulheres. “Na maior parte, não existe uma cultura de gênero, consequentemente a mulher não é bem recebida em cargos de gerência”, destaca Juliana.

Assédio sexual

De acordo com a OIT, o assédio sexual gera desigualdades e faz com que o assediador tenha a sensação de poder no ambiente de trabalho. Já as vítimas não conseguem desenvolver as suas atividades de forma plena, não voltam ao trabalho e os sintomas emocionais são inevitáveis.

“As formas de assédio podem surgir por meio verbal, ambiente inadequado, atitudes e gestos”, frisa a socióloga. Na própria Cartilha Cantada não é elogio: Campanha contra o assédio sexual e a opressão de gênero, também enfatiza que as vítimas ficam “frágeis, culpadas, sofrem insônia, tensão, raiva e depressão, assim como sintomas biológicos como dores de cabeça, dores musculares, ânsia de vômito, pressão alta, mudança no peso e fadiga. Além disso, o assédio sexual pode ocasionar a perda do emprego, já que na maior parte das vezes as mulheres se vêm forçadas a se demitirem.”

Juliana destaca que de acordo com a Lei n. 10.224, artigo 216, do código penal, o assédio sexual é crime. A OIT salienta que muitos casos de assédio sexual não são investigados. Diante disso, independente do gênero, é fundamental que a ação contra o assédio sexual seja uma luta de todos.

A cipeira Margareth Teixeira Leite, da Câmara Municipal de São Paulo, que estava na plateia, ficou surpresa por saber que a Comissão Interna de Prevenção de Acidentes (Cipa) também pode contribuir como agente em favor da vítima que sofreu assédio moral ou assédio sexual. “O assédio traz sequelas horríveis à pessoa que foi vítima. Por isso, é importante que a Cipa possa participar junto com o setor de recursos humanos da empresa para esclarecer e dar suporte à vítima. A palestra da socióloga Juliana foi importante para entendermos melhor sobre o assunto e saber quais são as medidas que devemos tomar nesses casos”, informa Margareth.

A data de 17 de outubro é lembrada como o Dia Nacional de Luta contra o Assédio Moral e Sexual, neste dia são realizadas campanhas e atividades para discutirem e conscientizarem as pessoas sobre o tema.

A socióloga frisa que é necessário mudar a cultura organizacional de uma empresa, essa iniciativa colocará de forma homogenea a diversidade de gênero em cargos de comando; que as diretorias não sejam coniventes com o assediador; campanhas de informação sobre as formas de assédios; canais de comunicação para que a vítima possa relatar e receber apoio e atuação rápida nos casos de confirmação de assédio moral ou sexual.

Animais peçonhentos nas plantações de abacaxi

“Toca de tatu é um local onde as serpentes se alojam”, informa a pesquisadora da Fundacentro, Maria Cristina Gonzaga, do Serviço de Ergonomia.

Geralmente, os acidentes com animais peçonhentos ocorrem em áreas rurais, de acordo com informações da Organização Mundial da Saúde (OMS). “Minas Gerais é o estado que mais ocorrem acidentes com jaracuçu e outras serpentes peçonhentas”, informa Cristina.

Em sua tese de doutorado, Cristina Gonzaga informa que os equipamentos de proteção individual quando fornecidos não protegem de forma adequada os riscos mecânicos causados por serpentes.

Frisa que a Portaria nº 452/2014, estabelece normas técnicas de riscos de origem mecânico. Em sua pesquisa, os testes com luvas, botas, mangotes e perneiras foram avaliados por meio de testes com ataques de serpentes.

A jornalista Cristiane Reimberg da Assessoria de Comunicação Social (ACS) publicou uma matéria a respeito da tese de doutorado da pesquisadora Maria Cristina. A pesquisadora também tem outras publicações: Cultivo do abacaxi, Saúde dos trabalhadores, Livro e relatório e Fundacentro e COMTAG.

Sofrimento e prazer no ambiente laboral

Um ambiente de trabalho pode proporcionar tanto prazer quanto sofrimento, nesses casos, a organização do trabalho em qualquer profissão é importante.

Para falar sobre isso, a jornalista Cristiane Reimberg, discorre sobre “Sofrimento e Prazer no Ambiente de Trabalho”, o qual foi pesquisa da sua tese de doutorado.

O público presente em sua palestra era composto por engenheiro e técnico de segurança, e enfermeiros, diante disso, a jornalista comenta que a partir do momento que o profissional consegue evitar um acidente, isto proporciona prazer ao trabalhador.

Já o impacto dos acidentes de trabalho, a exemplo do trabalhador que perde uma mão, pode fazer com que desenvolva depressão ou algum transtorno mental. Assim como, os trabalhadores que adquirem Lesão por Esforços Repetitivos/Distúrbios Osteomusculares Relacionados ao Trabalho (Ler/Dort), leva o trabalhador ao sofrimento.

“O confronto entre ideias e necessidade do sujeito com a organização do trabalho também desencadeia sofrimento”, informa Reimberg.

Interpretando uma frase do psiquiatra Christopher Dejours, a jornalista explica que “cada coisa que aprendo no trabalho, será levada a nossa vida!”, completa que o trabalhador terá um olhar para as questões aprendidas durante o seu desenvolvimento na atividade laboral.

Cristiane cita que o telemarketing é uma profissão de muito estresse. Na área da construção civil, o trabalhador é colocado como um ser que não tem medo, pois as suas atividades podem oferecer riscos de queda (trabalho em altura), soterramentos e choques elétricos.

Outra profissão apontada por Reimberg trata-se da precarização do trabalho dos jornalistas. “Os jornalistas entrevistados apresentaram sintomas relacionados ao trabalho, tais como insônia, infecção genital, dor de cabeça, dor nos pulsos, síndrome de burnout, presenteísmo e outros”, descreve a Reimberg.

Alguns servidores prestigiaram a Feira e, principalmente, o estande da Fundacentro. O pesquisador aposentado da instituição, Jófilo Moreira Lima, o qual destacou a importância da participação da Fundacentro nos eventos em prol da segurança e saúde no trabalho. Bem como, os servidores Arline Abel Arcuri e Jorge Marques Pontes.

Fonte: Fundacentro


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